terça-feira, novembro 20, 2007

O LIVRO


O Romance Victória Alada, de Lara Lunna, resulta de uma longa espera de suas leitoras. Há tempos a autora é conhecida no meio eletrônico, através de sua página, na qual publica contos, vindo a conquistar um considerado número de fãs apaixonadas por sua narrativa intensa, suas personagens marcantes e, principalmente, pela construção de heroínas lésbicas em paz com suas sexualidades. Lara Lunna desenvolveu um estilo narrativo que eu considero um estilo tenso. Suas personagens vivem no limiar entre o perigo da morte e a luta por sobrevivência: a cada dia, há uma bomba a ser desarmada e a cada dia viver se torna imperativo. As personagens embora vivam num mundo pressionado, são leves e apaixonantes, talvez por serem construídas de forma bem humorada e sensível, características da narrativa da autora.

Esse estilo tenso, mas com pitadas de humor e permeado por protagonistas fortes, mas não embrutecidas, oferece muitas possibilidade de encontro e identificação com as personagens. Suas sexualidades, suas fantasias amorosas, suas dores são colocadas dentro da narrativa, não como um fator principal para o enredo, mas como conseqüência da capacidade humana de amar, conquistar, perder, perdoar desapaixonar-se. Enfim, relações humanas caras e por isso tão avidamente buscadas por leitoras que acabam encontrando, na literatura virtual, um espaço para essas narrativas, ainda tão precárias na forma tradicional de publicação.

Lara Lunna é uma autora que tem uma atuação importante para a consolidação da literatura lésbica brasileira, visto que tem propiciado às leitoras o contato com uma produção que se difunde pela web como uma teia, “um grito de galo” a iluminar as manhãs até então feitas de narrativas predominantemente heteronormativas. Victória sai do espaço virtual e se materializa no papel, Lara Lunna, a partir desse romance, faz o que eu defino como uma volta à Victória que existiu antes que nós leitoras a conhecêssemos. Esse romance, apesar de nascer a partir de uma narrativa anteriormente publicada na página da autora, não apresenta, em todo caso, a mesma a Victória, ou então é uma Victória em processo de amadurecimento que se apresentará aos poucos aos olhos das leitoras. Esse romance é como o princípio de outras narrativas que se completarão e que virão a constituir uma personagem com que muitas leitoras poderão se identificar, não somente pelas ações da protagonista ou demais personagens, não apenas pelo mundo ricamente fantasioso que a autora manipula com tanta intimidade, mas talvez porque Lara Lunna possibilita pequenas incursões sobre a fragilidade dos laços afetivos, sociais, humanos.

Victória Alada também trilha por espaços na maioria das vezes fechados para o universo feminino. É um romance de aventura policial, gênero predominantemente masculino, na tradição brasileira, e traz como personagem-núcleo uma jovem policial lésbica de destaque no grupo investigativo do qual faz parte. Além dela, também existem outros personagens às voltas com investigações policiais e aventuras, todos eles ambientados no espaço nervoso de um departamento de inteligência investigativa. A tensão entre as personagens resulta de disputas estabelecidas no convívio profissional. E há muitas disputas, galerias diversas de personagens que se relacionam no limite entre respeito profissional, afinidades, desconhecimento das ações de seus companheiros. Enfim, o mistério das relações humanas, afetivas e profissionais.

Victória Alada desenrola-se como um thriller instigante aos olhos d@ leito@r, sua narrativa é envolvente e prende @ leitor@ a cada situação problemática em que a protagonista se vê envolvida. A leitura desse romance acontece como se junto ao texto, estivéssemos vendo um filme de suspense que envolve gradativamente a heroína e nos deixa nervos@s sobre a sua sorte futura.

Como leitora privilegiada da Lara Lunna, a partir da organização do livro Elas Contam tive a sorte de conhecer a Lara, de compartilhar idéias, tive o prazer de ler Victória Alada, ainda como paper, boneco do livro a ser editorado e assim pude dialogar com a autora, opinar, dar pitaco sobre a “ minha personagem”, sim – minha e nossa( d@s leitor@s) e da Lara Lunna, também, por que não?!! E confesso que eu fiquei apreensiva acerca do futuro da Victória e de outra personagem que, ao meu entender, é também núcleo central da seqüência iniciada nesse primeiro livro: as duas se complementam e não têm sentido se isoladas.

Ainda como leitora da Lara Lunna e posteriormente como amiga, falei para ela sobre a importância de sua narrativa para esse novo espaço de escrita e leitura virtuais. Penso que Lara não pode mais parar de escrever porque ela é responsável por um grande número de leitoras lésbicas que encontram na sua escrita, finalmente, um lugar de identificação e encontro com personagens lesbianas que vivem suas sexualidades sem o peso/tragicidade do lesbianismo das narrativas de décadas anteriores.

Aqui abro um parêntesis para Cassandra Rios, autora ao meu ver incompreendida na sua dimensão e importância para os estudos lesbianos no Brasil. Penso que foi a partir dessa Cassandra Rios renegada, silenciada, desvalorizada, embora lida por toda uma geração de leitor@s lesbian@as, gays e heterossexuais que embora tenham lido, quando jovens, escondem essa “mancha” na sua formação literária ou se negam a dizer da importância dessa autora que deu voz ao desejo, às angústias e impossibilidades da lesbiana e dos travestis de quatro décadas do século XX. Uma mulher transgressora falando de transgressões, mostrando a possibilidade de amor e sexo sem a “ fundamental” presença masculina ou a sagrada construção feminina. Mas tudo isso é pra falar que se temos hoje uma literatura lesbiana que se constrói sem conflitos psicológicos e com vivência sexual de forma “ natural”, como acontece na narrativa de Lara Lunna, isso só é possível porque no passado houve uma inconseqüente autora que abriu portas e deu voz ao sujeito lesbiano. E foi preciso antes mostrar uma literatura atormentada pelo fantasma da heterossexualidade

(o fantasma não é a homossexualidade, deixo aqui bem claro) a assustar e demonizar o desejo “desviante”, para que nós leitoras contemporâneas possamos nos deparar com uma literatura mais “ cor- de- rosa” do lesbianismo atual.

Ora, esse conceito lesbianismo “cor- de- rosa” tem dois lados (como tudo na vida). As questões políticas e de afirmação dizem que essa literatura deixa de mostrar a “realidade” da mulher lesbiana numa sociedade heteronormativa que isola e impede o pleno exercício da sexualidade lesbiana por criar um mundo artificial, de faz de conta das relações homoafetivas. Mas bem sabemos que a literatura é representação e quanto mais fiel à realidade, mais ela se afasta do que chamamos de literatura. Talvez o que as autoras lesbianas façam hoje, seja o que as feministas fizeram nas décadas de 60-70: um feminismo branco e heteronormativo que excluía as mulheres negras, classistas e as lesbianas. Nossas autoras lesbianas de hoje estão fazendo uma literatura que, só por ser lesbiana já é transgressora, política e contundente, já evidencia um sujeito que marca seu território de existência e de subjetividade. A literatura de Lara Lunna tem uma importância política que a princípio pode passar despercebida: Lara Lunna quebra, de forma delicada espaços de predomínio masculino: cria personagens fortes que transitam num espaço feito para homens: delegacias, secretos departamentos de investigação, assassinatos, perseguições, quadrilhas. Nesse ambiente exclusivamente masculino, Lara põe as mulheres como protagonistas, capazes de ações e desvendamentos e chefias surpreendentes, deixando os homens subalternos à inteligência delas. Esse já é um ponto transgressor da narrativa de Lara lunna. Depois, ela ainda constrói personagens que não escondem suas preferências sexuais, ou sejam, não se envergonham nem se intimidam sobre suas sexualidades, mesmo estando num ambiente fechado do universo masculino. Lara Lunna faz do desejo lesbiano não o tema principal, ela o apresenta da mesma forma como se apresentam as relações hetero, ou seja, de forma natural, sem essencialização ou sem se resumir a meros relatos sexuais como era tão comum em narrativas dessa temática.

E considero essa naturalidade como mais uma transgressão, mais um corte na heteronarratividade a que estamos acostumad@s como leitor@s. Não há como negar que a tranqüilidade com que a autora expõe as relações afetivas das personagens pode, por vezes, incomodar-nos: porque se pensamos que as coisas não são tão fáceis, como a autora nos apresenta, ao mesmo tempo leva à reflexão:-“ mas por que não são tão fáceis/ por que não podem ser?” Então passamos a prestar atenção ao discurso sutil da autora, às construção da sexualidade das personagens e, dialeticamente, nos deparamos com dois mundos: o da ficção- o mundo de papel tão bem manipulado por Lara Lunna e o mundo real que impede, oprime a liberdade de ser e a possibilidade de se viver harmoniosamente a sexualidade, independente se hetero, gay, lesbiana. Não há então como se negar que Lara Lunna faz literatura que possibilita reflexões também no contexto político.

(Glória Azevedo )

->Onde adquirir o livro: Editora Sundermann

Um comentário:

Analuka disse...

Interessante encontrar aqui este texto da Glória Azevedo: uma visão acurada, sensível, arguta da importância e força da criação literária de Lara Lunna!... Então, estamos à espera da "continuação" da história, ou seja, de novos livros da autora, que, certamente, encontrará público fiel, ainda que bastante diversificado, o que, sem dúvida, é um ponto bastante positivo: manter portas abertas para diferentes sensibilidades e olhares é essencial no mundo pulsante, móvel e vivaz da Arte!