quarta-feira, março 12, 2014


Aquele Frisão tinhé focim de quem  intendia das coisa.  Purisso soprei nas urelha dele, entri uma trança e outra nas crina, o que batia nu peito.

Primêra vez qui vi a moça, ela tinha apeado da cidade e eu dentro do redondel, dando  ensinamento pra um cavalo chucro.

Não gosto de laçá os bicho, apertar  os arreios e baixá chicote pra ensiná  cavalo ou qualquer outro quatro pata que me venha pros cuidado.

Os outro peão inté ri di mim. Dizeles que é coisa de florzinha du campo.
Prefiro anssim. Indolá, indocá, veizé qui gostu mais de bichu de qui di alguma genti.

Pois, vorteando pra ela.

Malemá deu com as  sandalinha  no chão pisado, já se dependura na cerca toda de zóio nimim na lida.

_Você deve ser a Zelão. Já ouvi falar muito de você. Meu pai diz que doma melhor um animal até mais do que o negro velho da Grota.

_Verdade não, moça! Véi da Grota ensinô tudu qui sei. Só tá ansim, sem força nas anca, ruim como o quê do estambo, o figo.

Cortei rente nu forcado o elugio dela. A moça dependura na cerca pra me chamá de Zelão, alendê metê a lenha no Véi, meu avô, único andante de duas patas qui vi por muitu tempu na vida?
Prazer. Fui batizada Zélia, filha do finado José e Mariazinha.

A mãe murreu quandu nasci e o pai, foi-se pisado pela boiada. Só ficô o avô. E, eu num gustava do tar pelido: Zelão. Nende Zélia. Muitu frescu pra arguém comu eu, criada já di bota, cinturão e chapéu. Só fartô bigode.
Gostu que mi chamem de Zel.

O irmão dela, Antonho da barba, capataz  e fio do dono da fazenda  Esperança, veio mi dá agitório.

_Não é Zelão, irmã. É Zel. Lembra dela?

Bem, adespois dus cavalo, o Antonho era gente que tinha meu respeito.

A moça pediu desculpas e ficou veremeinha.
Era daqueli tipo di gente qui vira tumati nem trisquim di dedo.
Intão achei que seria por bem lhe fazer arguma graça.
Iscanchei perto da cerca onde ela táva e prucurei nas feição da moça o quê lhi soltá num elugio.

E vi. Os zóio. E no fundim, fundim di mim eu sabia que conhecia aqueles zóio. Dionde? Nem limbrava, inda.

E eita pardi zói lindo!

_Teus zói, moça. Zói merelo. Tão merelo quanto os...
Parei um poco. Escapoliu das idéia o que ia dizê. Má como não gosto de deixá as coisa pelas metade, arremendei.
Má arremendei de coice, sem pensá direitu. Isso por causo di qui ela me fincó aquelis zói ni mim di um jeito...

_Seus Zói.Merelo, tão merelo quandas Rodiland que pros bico debuiei mío logu cedo!

A moça, Jasmin, é, esse o nome dela, ficou maize veremelha quar crista di galo índio. Chei eu, qui ia de tê um treco.
Masnum teve.

Apeô da cerca e fui zumbizando sem olhá dava com os pé.
Eu inté tentei falá da merda das vaca qui arrecem foram dá nu brete.
Só qui amoitei a língua na boca comu já era tempu de tê feitu antis.
E si pudessi avisá, já ia tarde.

A Jasmin não só meteu as sandalha no istrume como escorregô e caiu sentada nele.
Um vexami tantu que inté ieu fiquê avexada e me virei nos cascos pra móde fazê ela pensá que ninvi.
Mas u Antonho num deixô pôco e largô a gargaiada saí escovada pelo bigode.
I estas coisa péga a gente. Gargaiada boa comu canto de galo que vai se alastrando, um aqui, outro lá...
Gargaiei de perder as vista nas água que descia dos óio.
Daíntão que vi a moça levantá com jeito de saci que escapô da garrafa.
Me apontô um dedo pintadinho nas unha pra sortá a praga:
_Você vai ver só, Zelão! Eu vou me vingar!
Ué? pensei eu. Já escuvando o lombo do cavalo amansado. A moça senta no cocô de vaca por livre competência, o irmão cacareja e ieu é que pago o pato?
Pois num vi mais a Jasmim inté onte cedim. E já fazia um par di mês qui ela se amoitô na cidade, naquelis istudo de quem vêi ao mundo pra sê sinhá.
Si é fia do patrão, patroinha é.

Trei dois carrapichu das crina do Frisão lembrano que a tar moça já tinha sua história na fazenda. Issu antis de sê mandada pra capitar,um tempão, pros istudo.
Era ela uma minininha branquela e feinha quar fióte de curuja que me vivia dando nos carcanhá, pidindo pra dá volta nos cavalu.
Inté carreguei a miúda nu colo.Eu tinha uns quinze e a patroinha, sete.
E pequena virô moça bunita. Bem si vê.
Puis hoje, nos arto falante da festa du começu de  exposição do plantel de cavalo,  tóca musiquinha de cá, outra de lá e já veio música encomendada.
Fulano dedica música tal pra Sicrana.
Até aí, tudo bem.
Expusição era sempri anssim.  Música,  gente mais véia assistino as vorta e vorta dos cavalo nas arena, os mais moço, deum oio nos bicho e outro nas paquera, rabim di saia.
Ou inté andandu di mão dada, comprano pipoca,  argudão doci, mio verde  e paster nas banca.
Ieu inté qui gostu de argudão doci. Aquele cor de nuvim di finzinho de tarde, rosadinho quiném pena de coierêiro.
Taí, divia é de dizê que os óio merelo da Jasmim era da cor dos óio do coierêiro, ave meió, quemsabi na cachola dela, qui as galinha rodilandi premiada do terrêro.
I acunteceu di entrá uma música : Jeito de Mato daquela moça que canta bonito cum violão du ôtro lado.
I era dedicação di Zói Merelo pra Zelão. 
Ah, mi arrepiei toda. Índa mais purque a tropa toda di peão me desceu nas corcova, querendo é sabê quem era o tar Zói Merelo.
_Aí, Zelão, arrasando corações!
Meti o chicote nas bota deles até abrí clareira. Escafederam rino.
Adespois bateu gastura di pensá que u Antonho ia de achá ruim da irmã dele me mandano música. Podia pensá que eu andei de saliencia com ela. 
E o Antonho, que com a tropa já peguei muitu istradão de mês intêro, carriando gado, sabia qui da bocaiúva qui ele metia os dente, eu roía até a castanha.
Sóique uma coisa ele num pudia sabê. Quem era Zóio Merelo. Quando chamei ela, chamei pertim de mode qui só a moça botô nas orêlha.
Decidi dá o troco.Cabei a trança da crina do Frisão, tamboa qui nem que as nu meu cabelo brabo i fui lá nu lugar du som.
Didiquei:
Di Zel pra Zói Merelo a música “Burro Picaço”.
Era só essa toada que me deu nas ideia na hora. E era das boa.
Vortei pra  baia do Frisão e já vim vindo a tar musica das caixa dos falantes impulerados nos poste quenem curujão de ôio em ratim.

‘Comprei um burro picaço, de dez ano maizomêno, na hora de passá o recibo, o tropêro foi dizendo, cuidado com esse macho pois ele tem fama de sê perigoso. Por tê matado um peão o nome do burro ficou Criminoso’...

Prendi um bom maçu du rabo do Frisão nos dentes e garrei a trançá. Tenho dentes bons dos nêgo de sangui purim vindo da Grota do Izidoro. Grandes, brancos e bem empolerados na linha.

A grota já foi casa de nêgo fugido da vida de trabaiá inté a morte, com corrente no pé. Lá se arrancharam e ficaram faizé tempo.

‘Cortei a crina do burro no sistema meia-lua, pra cortá uma légua e meia, o Criminoso não sua...’

Foi nu tempo de terminá a música e a Zói Merelo já tinha dado comigo nas baia.
E vinha verêmeia como só ela.

_Zel, o que foi que fiz pra que você me trate desse jeito?
‘Eu devia é de tê dedicado, Cabocla Teresa. Mas não. A cabocla mórri no finzim’.
Apressei a trança do rabo.
_Ói, a idéia foi sua! – Eu dissi cum as borda da boca purque os dente tava travado no rabo do Frisão ._ E, a música é da mais arta qualidade. Tão das boa que tem peão que chora só di ourvi.
_Ora. Tira esse rabo da boca pra falar comigo!
Tirei. Afinarmentes, ela era a patroa. E dona do Frisão. Com o adiantado da trança, deu pra terminá.
_Tá certo. Vamo proseá! – ergui as mãos entregando os ponto._ A música era para agradá a patroinha. Nada pra lhe aperreá.
_Já não basta me ofender, me chamando de olho de galinha?
_Ói aqui, pode sê que errei de bicho. Gosto das galinha. Mas os óio da patroinha é bonito tar como... sabe , zóio de gavião de penacho?
A Jasmim foi fechano u cerco comigu dentru na baia do Frisão.  A gastura na garganta, crescendo anssim, anssim.
Iela me pegô us pulso cum mão forrada com  pele branquela que, na minha di nêgo, pariceu pele di bagre fidalgo de tam branca. Quano não se averemelhava.
Achei de esperteza não dizê nada dissu tumém. A moça tava brava.
As mão manietada só dava de me aumentá a gastura.
_Oqui a moça qué de mim?
_Isso!
E ela me beijô. E não era bêjo nas bochecha. Foi bejo daquele de fazê beata da igreja caí de joelho pra rezá ou rolá pro chão, estrebuchando.
Guentei firme e ainda bizoiava a Jasmim com meus óião aberto na hora qui ela sortô dos meus beiço, a boquinha miúda de rosa tendendo a abrí.
Fez isso, a diaba, e já ia vorteando nos carcanhá. Mas eu lacei as anca dela, virei a moça contra as talba da baia.
Daí garrei a bejá. Di novu.
Aquela Jasmim, cruza com cacto, começô a  prejudicá minhas costa com as unha fincando por cima da camisa de algudão. E pinicava.

Sortei as mão da feroz mas continuei escorando ela na parede. Até pensei que ia começá com gritinho e murro de pata fechada.
Nem foi isso. Tornô a me garrá no beijo e nas unha.
E entrô com língua na minha boca quinem gadu fujão furando cerca. Foindo e indo e ieu pensei que era... sei lá o quê. Mas esgaiado de bom.
As ôtra moça que encontrei no caminho da vida,  nas minha vinte e duas vazante, num era taum assim de me querê. 
Se pensei qui acuava jaguatirica naquela moita, dei cum onça suçuarana.
Saimo da baia com capim no cabelo e eu tonta puxando o Frisão pelas rédea.
A Jasmim foi andano pur perto, naquelis passinhos curto, picadinho. No disfarci.

Os zóio merelo cheio de luzinha, como zói di jacaré im noite sem lua.
Achei meió não dizê isso a ela. Mesmu que achasse bunito.
Pertu da arena ela pregunta se eu gostava do Frisão.
Máclaro. Aquele bicho era de longe o meió em toda expusição.
_Minha égua está prenha dele. Te dou o filhote quando nascer!
_ã? Não, patroinha. Num carece!
_O que há de errado com o meu presente, Zélia Izidoro?
Ié, adespois daquelas saliência na baia, tinha mesmo de me chamá pelo nome. E sabia todim ele. Quarquer um vindo da grota tinha nu nome o Izidoro. Meu vô é o Nastácio Izidoro.
_Naderrado, moça. É ieu mesmo. Malemá tenho um teieiro pra esticá rede e o rancho de comê eu recebo como paga da minha serventia de peão. Não vai tê bóia que dê pra bocona de um potro fio deste aí. Come balde e balde de aveia, alfafa,  mio, farelu de trigu, ração e tudo que é capim novo. Dava pra alimentá a Grota do Izidoro todinha. Daí que acho meió apreciá o animar du jeito que tá. O patrão seu pai e o Antonho não me nega montá em quarquer um se me dá a vontade.
_Mas então, que presente posso te dar que a agrade?
Parei o passo de vez e o Frisão me deu uma cabeçada nu lombo. Aquele bicho malandru tava no proveito.
_Arrê, patroinha, e dêsdicuam tem essa precisão?
As mão da moça tava na cintura dela. Não podia sê coisa boa de deixá se contrariá.
_Desde a baia, quando você me fez sentir como nunca antes na vida. Eu gosto de você, Zel, desde que era menina!
Ié, aquela moça sim sabia colocá as palavra alinhadinha na língua rápida.
Devia de sê coisa daquelas escola na capitar.
Masieu não. Eu era bicho du mato que malemá sabia lê, escrevê e fazê conta.
Tirei o chapéu e cocei o trieiro entre as trança.
_Podi mi dá...um argodão doci?

_Ah, vem cá. O que acha de mais uns beijos? Isso depois do algodão?

Tremi nus cascos, mas fui.

3 comentários:

Adriana Dias disse...

Lara, esse conto e novo ? Tava guardado? Não lembro de ter lido ele não .

Adriana Dias disse...

Ah.beijos mascoty rsss.

Lara Lunna disse...

Olá, Mascoty.

Sim, o conto é novo.
Não tava guardado...rs...

Escrevi estes dias, assim, ligeiro.

Venha visitar sempre que quiser. O meu site no UOL não existe mais.

Agora é aqui a matriz.

Beijos.