quarta-feira, janeiro 16, 2008

Infidelidade

Faz tempo que não posto, eu sei. Fim de ano, festas, muita coisa acontecendo. Muitas boas e outras, nem tanto. Mas sempre renova a esperança, o otimismo em meu coração a cada ano que se passa.

Encontrei este texto sobre fidelidade e achei muito bem escrito, fundamentado e interessante.
É de uma garota portuguesa, portanto, há alguns termos e expressões utilizados somente por lá, mas dá para compreender a leitura.

O blog em que ela escreve chama-se "Tempus Blogandi". Muito bonito e interessante.
Tem até música de fundo (Lakme de Delibes). Bom gosto na escolha.



Terça-feira, Dezembro 04, 2007

Infidelidade e adultério

O que é a infidelidade e quando começa? No pensamento? Na cama? Ou palavras que se dizem e que se escrevem? Onde está a vossa bitola? Estaria eu, acima ou abaixo dessa fasquia? E é mais justificável nos homens do que nas mulheres?

Por natureza, os seres humanos não são monogâmicos. Foi, primeiramente, a sociedade ocidental formada sob a égide da mitologia judaico-cristã e consequentemente patriarcal que nos “convenceu” que o somos. Em tempos de grande obscurantismo, não só nos convenceu, como nos obrigou, pois o adultério chegou a ser punido com a pena de morte. Em certos países, o adultério feminino ainda é punido com a pena de morte.

A sociedade instituiu o casamento para garantir a posse material e a hereditariedade. Ora, até há bem pouco tempo, antes de ser conhecida a importância do DNA, qualquer criança saída do ventre de uma mulher era seu filho. Enquanto que um homem nunca tinha a certeza de que a criança era seu filho. Daí que a imposição de fidelidade sexual fosse muito mais exigível à mulher que ao homem. Por outro lado, esta mesma sociedade foi e ainda é extremamente cruel para com o homem “enganado”, pondo em causa a sua masculinidade e sujeitando-o a humilhação com consequências psicológicas que podem ser muito traumáticas. Daqui aos crimes de sangue foi um passo. Ainda hoje, em países de que Portugal é um triste exemplo, o adultério feminino ou a desconfiança da sua existência, levam um número muito grande de homens a punir a companheira assassinando-a. Limpam a sua honra com o sangue da “sem vergonha”. E, as decisões proteccionistas dos tribunais relativamente a estes crimes e outros praticados por homens, vieram ajudar à sua disseminação. Lembro-me de um acórdão de 1989 em que os juízes confirmaram a condenação a apenas quatro anos de prisão de um arguido de violação e sequestro de duas mulheres Iugoslavas. Os juízes fizeram questão de escrever: “Se é certo que se tratam de crimes repugnantes que não têm qualquer justificação, a verdade é que, no caso concreto, as duas ofendidas muito contribuíram para a sua realização. As duas ofendidas, raparigas novas, mas mulheres feitas, não hesitaram em vir para a estrada pedir boleia (carona) a quem passava, em plena coutada (território) do chamado ‘Macho Ibérico’ (homem português ou espanhol).

A fidelidade é uma criação de uma sociedade fechada, obscura e ignorante que impunha aos respectivos povos mitos que, consoante a sua conveniência, ia inventando com o intuito de lhes causar um extremo temor divino representado na terra por uma igreja sequiosa de poder e riqueza.

Ora, ainda hoje nas sociedades onde as igrejas ou filosofias religiosas têm grande influência, é notória a rigidez posicional no que respeita a actividades sexuais, principalmente da parte de mulheres casadas ou amancebadas(que mantém uma união estável ou mesmo, ou "amigadas" como se diz aqui no Brasil) fora dos seus relacionamentos. Nalguns países essa rigidez é notória até para com as mulheres solteiras.

A revolução sexual dos anos 60 não chegou a Portugal... (Retirei este parágrafo pois entendi que trata de assuntos muito específicos de Portugal mas o texto completo pode ser lido no link do blog, acima) .

Nos anos 80 quando se começava a tentar recuperar do atraso no que respeitava a uma revolução sexual, surgiu o HIV e logo apareceram alguns cavaleiros do apocalipse a anunciar que era castigo divino e que os homossexuais e adúlteros(as) eram proscritos. O retrocesso foi uma realidade.

Hoje, dada a continuidade da influência de uma igreja tradicional que retrocede perante a mudança, continuamos timidamente a tentar sair da ignorância e provincianismo que ao longo de centenas de anos nos tem assolado. Para a mudança de mentalidades, de pouco nos tem valido uma pseudo-democracia com mais de 30 anos cujo leme tem sido guiado por incompetentes "navegadores".

Teoricamente, a infidelidade é o não cumprimento de um compromisso de fidelidade. A infidelidade começa quando alguém dirige os seus pensamentos sentimentais ou desejos sexuais para alguém que não é o seu cônjuge ou companheiro(a). As palavras sentimentais ou sensuais dirigidas também a alguém que não é o(a) companheiro(a) ou cônjuge, surgem dos pensamentos, logo, há infidelidade quando são proferidas ou escritas.

Quando se passa dos pensamentos e palavras à acção, estamos perante o chamado adultério.

Somos todos infiéis, homens e mulheres e, se nem todos cometemos adultério é porque nos faltou oportunidade. E esta oportunidade assume várias formas: receios de cariz (fundo) religioso, medo de ser apanhado na curva(pulando cerca) e consequente perda, não desejada, do(a) companheiro(a) com quem se tem partilhado a vida, temor de ser um proscrito socialmente falando, educação, diferença de idades, razões logísticas, falta de dinheiro, falta de interesse da pessoa que se deseja, etc., etc.

A infidelidade e/ou adultério quando é do conhecimento do outro causa-lhe dor? Claro que causa! Basta dizer que o outro foi atingido no seu orgulho e/ou ego e pode, ainda, temer a perda da pessoa que ama. Mas, é a vigilância sobre o outro que evitará a infidelidade? Não, porque já todos fomos, somos e seremos alvo de infidelidades e todos fomos, somos e seremos infiéis. E evitará o adultério? Também não! Então, porque nos haveremos de comportar de uma forma tão estúpida com atitudes de posse, ciúme e violência que destroem uma relação mais do que a infidelidade e mesmo o adultério quando passageiros?

Quando perceberemos que a liberdade responsabiliza?

São muitos anos de uma cultura que está profundamente enraizada dentro de nós e é muito difícil libertarmo-nos. É um facto! Mas começa a ser altura de mudarmos certos valores que só nos têm tornado infelizes porque não são, na sua génese, naturais visto as pessoas não serem objecto de posse seja de quem for. Haja, ao menos, alguma razoabilidade!

(Assinado: Duca)



2 comentários:

Adoa disse...

Eu já acredito que não existe uma só pessoa para cada um/a de nós.
Acho isso (Amar uma asó pessoa) bastante "pequeno" e curto para tudo o de grande que o ser humano possa sentir e fazer da sua vida. Pedir isso a uma pessoa é cortar-lhe as asas, é ceifar-lhe algo muito precioso que se chama Vida, Amor...

Beijos!

Analuka disse...

Texto inteligente!... De fato, ser "monogâmico" não é algo "natural"... ao menos, para algumas almas e pessoas que prezam mais a liberdade, do pensar e sentir, do que certos "padrões" de comportamento que tentam limitar os vôos amorosos, as descobertas, os avanços e assombros, os prazeres, de se permitir, e permitir ao ser amado, ser mais livre!...
Ainda: porque, se parte da humanidade acredita na idéia de que só podemos e devemos amar uma pessoa de cada vez, a parte que defende um outro ponto de vista, mais alternativo e sábio, em minha opinião, também não deveria ser respeitada?...
Melhor seria, sempre, manter alma e mente abertas à reflexão, ao questionamento, à mudança, e as asas abertas à Vida, ao Amor, `a Arte de ser feliz!...
Abaixo os sentimentos de "posse" e as prisões amorosas, pois!!!